7. - O Concelho chegou!

 É verdade, mas de tanto sofrer, de tanto esperar até parecia uma ilusão de mágica. Mas não. Foi uma realidade em toda a sua plenitude! No dia 19 de Março de 1998 a Assembleia da República aprovou projectos de Lei, e logo 3 de uma assentada, do PP, do PCP e do PS, criando assim o município de Vizela.
É o município 306 do País, sob o signo da coragem.
Coragem de uma comunidade que, na prosecussão de um ideal de autonomia, confundido por vezes com o de Liberdade, sempre soube lutar, determinadamente, durante 3 décadas contra opositores encarniçados e poderosos.
Coragem também da parte do Poder Político que foi capaz de solucionar um conflito antigo que já se tinha tornado quase numa doença crónica da política portuguesa.
Nesta Primavera o concelho chegou, ainda que com um atraso de mais de 100 anos, só agora cumprindo o desejo expresso em 1888 por Monsenhor José Augusto Ferreira, o célebre Abade de Miragaia - Porto, continuador da excelente obra "Portugal Antigo e Moderno" de Pinho Leal.
Vale a pena nestes momentos de alegria lembrar as palavras de Mosenhor José Augusto Ferreira a quem coube desenvolver naquele "Dicionário Geográfico Estatístico e Corográfico"  o vocábulo "Vizela".
Como é sabido, com a reforma administrativa de Mousinho da Silveira em 1836, foram extintos muitos concelhos e entre eles o de Barrosas. Desse concelho, ou do seu arciprestado, faziam parte várias freguesias, que vão agora integrar o município de Vizela, tais como: Stº Estêvão de Barrosas, Stª Eulália de Barrosas, Regilde, Stº Adrião de Vizela e S. Paio de Vizela.
Estas freguesias do vale do Vizela foram dispersas por 3 concelhos ficando algumas a mais de 15 Km das Sedes de municípios em que foram integradas.
Ora, quando Monsenhor José Augusto Ferreira se deslocou a Vizela, para elaborar o seu trabalho, já a terra atravessava um surto de grande desenvolvimento, o que o levou a preconizar que as duas freguesias deviam ser elevadas à categoria de Vila, sede de um concelho, próprio de um julgado municipal, tirando-se na circunferência algumas paróquias aos concelhos vizinhos. E acrescentava: «o concelho que pedimos não é uma inovação, mas restauração, pois já existia no sec. XIV o Concelho de Caldas de Vizela, como prova um pergaminho do cartório da Universidade de Coimbra, pergaminho que pertenceu ao Mosteiro de Roriz...».
Não admira, portanto, que, na tarde do passado dia 19 de Março, conhecido o resultado da votação na Assembleia da República, de imediato o povo de Vizela desse largas à sua incontida alegria.

Conhecer bem a história da luta municipalista de Vizela, e contemplar o seu final feliz da varanda do Palácio de S. Bento, foi e é uma emoção indizível que jamais se apagará do coração e da memória.


 
De facto, ver o largo de S. Bento pejado de gente, pessoas de todas as idades e extractos sociais a cantar e a chorar em uníssono, abraçando-se, dançando, saltando e agitando com frenesim as bandeiras amarelas e azuis, tudo acompanhado do som do buzinar de automóveis e do toque de sirene dos carros dos Bombeiros, um dos elementos do ritual da luta autonómica do povo de Vizela, constituiu um espectáculo belo demais para poder ser descrito, tanta a espontaneidade, sinceridade e força interior de que se revestiu.


 

Tudo saiu bem na festa feita pelo povo de Vizela, tão transbordante e comunicativo ele se mostrou.
 
 
 
 

 
 

As manchas de côr de muitas blusas das mulheres e das camisas dos homens, os dizeres expressivos, seja pela força da sua mensagem, seja pelo seu humor, do vestuário dos jovens, a par da propriedade de algumas frases e slogans ouvidos, dos quais merecem saliência "Monteiro é Pai", "O povo é quem mais ordena", "Democracia assim vale a pena", "Guterres é um presidente honrado" e "palavra de Guterres é palavra de rei"; tudo repetimos, contribuiu para uma festa que não será esquecida pelos que a viveram.

Não queremos deixar de dizer que os dois últimos slogans, que ficaram referidos, contrastaram e desmentiram afirmações de responsáveis políticos que lemos na imprensa de Guimarães e que revelam bem a estatura moral de quem as proferiu. «Há promesas que merecem o tratamento dos pastelões, isto é, são feitas para se quebrarem».
Com políticos que assim pensam, não admira que certa política esteja em crise.

Mas, agora, é tempo de tudo esquecer, de pensar o futuro em harmonia e responsabilidade.
Não quero, porém, deixar de lembrar e de prestar a minha homenagem a todos os que partiram sem terem a dita de verem o concelho chegar. Simbolicamente, chamo à nossa presença alguns nomes que deram, dentro das possibilidades, contributos diversos, mas preciosos, no desenvolvimento da terra, na luta há tanto tempo desencadeada, como fizeram Ana de Sá, Pereira Caldas e Bráulio Caldas, Abílio Torres, Armindo Ribeiro de Faria, António Portas, Armindo Pereira da Costa, Francisco Costa (Júlio Damas), Manuel Faria, José Luis de Almeida, José Ferreira, Joaquim Oliveira e o recentemente falecido Manuel Fonseca e Castro que muitas vezes ouvimos falar acerca do concelho.
E não posso deixar de lembrar com sentida emoção o professor Emílio Caldas, cujo coração não resistiu à alegria da festa da chegada do concelho de Vizela.
Saibamos construir o nosso concelho na modernidade, mas sem esquecer o passado. Mãos à obra, porque o concelho chegou!

(Drª Maria José Pacheco, in Notícias de Vizela, nº 720, de 27.03.98)
 
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